Coisas... minhas coisas

É apenas um cantinho.
Pra desabafar e falar um pouco do que não deve ser ouvido.

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Se alguém perguntar...

07 de julho de 1962

Se alguém perguntar quem sou, diga que sou um amigo, que fala de amor, que fala do vento e se esquece do tempo...
Diga que não tenho problemas, que eu sou o próprio problema.
Choro sem motivo, rio em momentos difíceis e, por mais que eu tente, não consigo me entender.
Sempre me perco dentro de mim mesmo, e às vezes me encontro nos lugares mais improváveis.
Se alguém perguntar onde vivo, diga que vivo no coração daqueles que me amam...
Diga que não me procurem, não me encontrarão lá.
Amo a chuva, mas sempre acho um jeito de evitar que ela me molhe.
Se alguém perguntar por onde ando, diga que ando pela noite e que nela me aqueço...
Não diga que as pessoas nunca mudam, eu mudei.
Acho que esse é um dos meus melhores defeitos, viver recluso no meu mundo obscuro, onde nada nem ninguém pode escutar os meus gritos; numa prisão perpétua dentro de mim mesmo, onde as grades que me cercam são o meu próprio eu, e não importa pra onde eu me vire, sempre dou de cara comigo mesmo.
Se alguém perguntar se eu amo, diga que sou a pessoa mais apaixonada do mundo...
Não diga que canto mal, eu tenho o meu ritmo e nele os meus meninos me acompanham.
Não diga que não sente o meu cheiro, é você que não sabe me cheirar. Por onde passo, deixo um pedacinho de mim, vou medes fazendo, e novamente, me perdendo.
Se alguém perguntar meu nome, diga pra me chamar de "meu amigo"...
Não diga o que sou pra você, vão pensar que seu amor tem limites.
Não diga que me amará para sempre,pois se mudar de ideia podem querer te cobrar.
E se alguém perguntar quem eu sou, diga que sou apenas alguém que ama a vida, e seus amigos...
Que,se me tiver, dê valor, porque se me perder... perdeu.
Só sei que metade de mim é o que sou: A poesia das canções que mexem com minhas emoções.
A mágica das pessoas que conquistam minha admiração.
O contato suave de focinhos gelados, o toque macio e morno de uma explosão de alegria em forma de incontáveis pintinhas.
Aquele monte de papel amassado no lixo, quando eu pensava estar escrevendo alguma coisa.
O desespero de um grito sufocado num momento de dor excruciante.
O que vejo, o que respiro, o que aspiro, o que sinto, as coisas que estão guardadas dentro do meu coração.
A minha consciência tranquila, leve e serena, apesar de tudo.
Amigo de muita gente, inimigo de quem eu nem imagino.
O estudo geométrico mais completo quea matemática já viu, porém, confesso, não raro ando em círculos.
Do meu jeito, como eu quero e ao meu compasso, da maneira como eu gosto e me sinto bem.
No meu tempo, minha hora e minhas próprias experiências.
No meu limite, até onde sei que posso e até onde acho que vale a pena seguir.
E a outra metade: Só quer ser oque eu nunca fui.

Morte em vida

16 de março de 2026

Às vezes morrer em vida não é um ato dramático, é um desgaste lento, quase invisível, como uma luz que insiste em permanecer acesa mesmo quando ninguém mais parece notar seu brilho.
É caminhar por ruas cheias de gente e sentir que cada rosto passa por mim como se atravessasse uma névoa.
Estar na multidão e, ainda assim, ser estrangeiro de tudo, e estranho a todos.
Há quem imagine que a solidão só nasce da ausência. Mas sabemos, e muitos silenciam sobre isso, que ela pode existir dentro de uma casa habitada, dentro de um casamento antigo, dentro de conversas que já perderam a escuta.
Quarenta anos ao lado de alguém e, mesmo assim, ouvir sempre a mesma sentença, como um carimbo que não se cansa: “não vai dar certo.”
Com o tempo, isso deixa de ser opinião e vira uma sombra que tenta cobrir qualquer passo à frente.
E então, morrer em vida é justamente isso: continuar respirando enquanto o mundo em volta parece desacreditar da minha possibilidade de florescer. É sentir que cada tentativa vira pretexto para alguém reafirmar a profecia do fracasso. É aquela dor surda de perceber que até quem deveria ser porto virou espelho quebrado, refletindo minha imagem em pedaços.
Mas aqui está o ponto cego dessa história, onde a psicologia emocional e a vida real se encontram: morrer em vida também é, paradoxalmente, o aviso mais claro de que algo ainda pulsa. Só quem ainda deseja viver sente esse incômodo. Só quem ainda tem um projeto interno, e mesmo que o mundo externo diga “não vai dar certo", percebe o peso da falta de apoio.
A crônica termina, mas a vida não: toda solidão profunda sempre aponta para uma fronteira. E cruzar fronteiras, por mais doloroso que seja, é um ato profundamente vivo. Porque a morte verdadeira é o conformismo, e eu ainda não se conformei.

Amores

04 de janeiro de 2026

Meus amores,
Escrevo com o coração apertado, mas transbordando de um carinho que o tempo jamais apagará. Como colocar em palavras o fim de uma jornada como a nossa? Não há um jeito fácil, porque o que vivemos não foi simples, foram vidas inteiras.
Quero que a primeira coisa que saibam, e a mais importante de todas, é que esta decisão não nasce da falta de amor. O meu amor por vocês continua aqui, vivo, e suspeito que sempre estará. Ele apenas se transformou, assim como nós nos transformamos ao longo do tempo.
Lembro-me do início, dos sonhos que compartilhamos, da coragem que tivemos para construir um mundo que era só nosso. Construímos uma família, uma casa, uma história repleta de risadas, superações e cumplicidade. Rimos até a barriga doer, choramos abraçados em momentos de dor, e superamos tempestades que pareciam impossíveis. Cada um desses momentos moldou quem somos, e sou imensamente grato por cada um deles. Nós fomos parceiros de dança na festa e no caos da vida.
Mas a vida, em seu fluxo constante, às vezes nos leva a caminhos diferentes, mesmo quando os corações ainda se reconhecem. Chegamos a um ponto onde, para continuarmos a crescer e a buscar a paz individual que merecemos, precisamos seguir em trilhas separadas. Não como um fim, mas como uma nova forma de respeitar o amor tão profundo que nos une.
Esta não é uma carta de adeus à nossa história. É uma carta de agradecimento. Obrigado pelas 'viagens', pelos jantares de terça-feira, pelas manias que aprendi a amar e até pelas brigas que nos fizeram mais fortes. Obrigado por terem sido minha família por tanto tempo. Eu sempre estarei aqui, torcendo pela felicidade de vocês com a sinceridade de quem um dia prometeu o mundo e o maior amor do mundo e hoje, com o mesmo bem querer, deseja que encontrem em sua plenitude, mesmo que seja em um novo caminho.
O amor não acabou, ele apenas mudou de forma. E o meu se transforma agora em um carinho eterno e um respeito profundo. Com todo o amor que um dia nos uniu e que hoje nos liberta,
Covinho

Mais um, menos um

02 de dezembro de 2025

O tempo, que por anos corria feito água por entre os dedos agora se arrasta como melado espesso. Cogito um banho demorado, estou precisando. Ironia, morrer limpo.
O café da manhã não me interessa mais, olho e não consigo engolir. O estômago fechado, a garganta apertada pela proximidade do inevitável.
Apenas o dos meninos, esse café da manhã me interessa cumprir e, cumprir bem.
Tenho ouvido muito sobre perdão, sobre paz, sobre um lugar melhor. As palavras ecoam vazias contra a realidade decidida.
Não há mais nada além da espera.
As tardes se alongam como um suspiro eterno. As marcas que fiz ao longo dos anos, riscos e rabiscos nos móveis, no chão, na memória. A pergunta martela insistente. Haverá algo depois?
As pessoas mudam o comportamento. Menos hostis, quase respeitosas. A consciência da possibilidade que meu rosto insiste em revelar. O sol se põe pintando a casa de tons alaranjados. Me lembra de outros pores do sol, na praia, em outras casas, com amigos, com os meninos (todos eles).
Quantos pores do sol uma vida contém? Tentei me lembrar mas a memória se perde na melancolia.
Escrevo uma carta, para a vítima que infernizei nesse mundo. Palavras de remorso, de amor, de desculpas que chegam tarde demais. As mãos tremem, não de medo, mas de uma tristeza oceânica pela vida que desperdicei.
Na varanda, as luzes tornaram-se frias e clínicas. Não há testemunhas. Procuro por olhos gentis e encontro, os dos meninos.
Deito-me com eles. As correntes que me prendem à vida se fazem leves, afinal para onde fugiria um homem destinado e decidido a cumprir o papel combinado?
Lila, se está me ouvindo… obrigado por ter tentado me salvar.
Meus sonhos são sobre o cheiro de café na cozinha da infância, sobre o riso da minha mãe, o abraço do meu pai, o carinho dos meus peludos, sobre o calor do sol numa manhã qualquer de uma vida que agora se apaga.
E assim, entre a memória de dias melhores e o peso do presente irremediável, uma existência chega ao fim, não com estrondo, mas com o silêncio definitivo de um coração que deixa de bater.

Pro Zebedeu, amorzão da minha vidinha

28 de novembro de 2025

Há dias em que a ausência pesa mais que a presença já pesou. É assim que sinto você, Jacinto, neste 28 de novembro, dois anos sem suas patadas matinais na varanda, sem aquele olhar questionador que me seguia pela casa como se perguntasse: "E agora, para onde vamos?"
Seus olhos, ah aqueles olhos, eram janelas abertas para uma alma que conhecia a linguagem do afeto puro, sem reservas, sem condições. Quando você me olhava, eu via refletido ali não apenas minha imagem, mas a versão melhor de quem eu poderia ser: alguém digno daquela devoção que só os cães sabem oferecer.
Lembro-me de todas suas manchas negras, cada uma um mapa particular da sua personalidade única. Aquela orelha preta, que eu sempre acariciava quando você se deitava ao meu lado nas horas vadias. Aquelas três pequenas no focinho que dançavam quando você farejava algo interessante no jardim. Cada marca em seu pelo era uma assinatura da natureza, um código que só nós dois entendíamos.
Você me ensinou que o amor não precisa de palavras. Seus saltos de alegria quando eu chegava em casa — mesmo que tivesse saído apenas cinco minutos, eram sinfonias mudas de felicidade. Nossas sonecas no sofá do sítio, com uma pata esticada tocando minha perna, eram declarações silenciosas de confiança absoluta.
Jacinto, você foi meu professor de presença. Enquanto eu me perdia em ansiedades sobre o futuro ou melancolia sobre o passado, você vivia plenamente cada segundo, cada cheiro, cada brincadeira, cada carinho. Você me mostrou que a vida acontece agora, neste exato momento, e que a felicidade pode ser tão simples quanto uma sandália mastigada no quintal ou uma caminhada sem destino.
Neste dia, o segundo aniversário de sua partida, não quero falar apenas de saudade, embora ela more em cada canto desta casa. Quero falar de gratidão. Gratidão por cada manhã que você me acordou com beijinhos babados. Por cada vez que você sentou ao meu lado quando eu estava triste, mesmo sem entender o motivo. Por ter me escolhido como seu humano favorito entre todos os humanos do mundo.
Você continua vivo, Jacinto. Vivo na forma como eu paro para acariciar seus filhores, as sementinhas. Vivo no jeito como eu olho para o céu de fim de tarde e penso: "Jacinto adoraria este dia". Vivo na certeza de que, em algum lugar, você está correndo livremente, sem coleira, sem limitações, esperando pacientemente o dia em que nos reencontraremos.
Até lá, meu queridão, levo comigo a lição mais preciosa que você me deixou: amar sem medo, viver sem pressa, e encontrar magia nos pequenos momentos que fazem a vida valer a pena.
Como é grande o meu amor por você.

Feliz aniversário

27 de novembro de 2025

Dedicatória à minha mãe, que hoje completaria 98 anos.
Não há velas para soprar, apenas memórias que ardem com a constância de chamas eternas. Passaram-se vinte e um anos desde que você partiu, mas sua presença permanece intacta, tecida na trama de quem sou.
Você nasceu quando o século ainda era jovem, atravessou guerras, silêncios e transformações que eu só conheço pelos livros. E, no entanto, foi nas pequenas coisas, no gesto, na palavra, no olhar, que construiu um legado impossível de apagar.
A saudade não diminui. Aprendi que ela é apenas o avesso do amor: quanto mais profunda, mais significa que você importou. E você importou tudo.
Hoje eu celebro não a ausência, mas a presença que você deixou impressa em mim. Celebro sua coragem, sua ternura, a força silenciosa com que moldou vidas e destinos. Você não está aqui, mas está em cada escolha que faço, em cada valor que carrego, em cada momento em que escolho o amor ao invés do rancor.
Feliz aniversário, mãe.
A morte levou seu corpo, mas não sua essência. Você continua em mim.
Com toda admiração, saudade, carinho e amor,
Seu filho, Clovinho